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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Do mar

É como eu te digo, não consigo passar muito tempo sem ver o mar. Seja qual for a estação do ano, até mesmo se estiver a chover durante semanas seguidas. Assim que bate aquela vontade eu agarro no carro e corro para a praia mais próxima. Ou para a mais longínqua, se por acaso estiver num desses raros dias em que gosto de conduzir.
Por isso eu gosto tanto do Verão. Os dias de sol e calor dão-me sempre bons pretextos para fazer meia dúzia de quilómetros, mais vezes, para meter os pés na areia e mandar-me à água, que apesar de fria por estes lados, me deixa sempre de alma lavada. É que nem te digo o efeito que este pequeno gesto tem em mim. É um acto terapêutico associado a uma sensação de liberdade que só quem percebe das pequenas coisas consegue entender do que falo.
Por isso, não importa por onde ande, me mude ou viaje, porque sempre que bater aquela vontade, eu hei-de correr até à praia mais próxima para meter os pés na areia, brincar na água feito menino e ali ficar, sentado um bom bocaco, a observar a beleza do rebentar das ondas.

domingo, 4 de setembro de 2011

Para ir escrevendo...

- Pára de esfregar, que por esse andar não há hidratante que te tire os golpes das mãos! - disse-lhe.
- Deixa-me estar! Não vez que ainda não está limpo?
- Como queiras! - E saí da cozinha.
Tem sido assim desde aquele dia... Ele não fala no assunto e faz de conta que está tudo bem, e eu quase acredito... mas nunca demora muito até que volte a vê-lo perdido dentro de si mesmo, enquanto em modo automático vai puxando o lustre a tudo onde toca.
Na semana passada limpou portas e armários, pondo-lhes tanto óleo de cedro que os espelhos cá de casa quase deixaram de ter utilidade; na semana anterior conseguiu arranjar roupa suficiente para encher quatro máquinas de lavar; hoje, depois de fazer uma revolução no nosso roupeiro, foi para a cozinha, fez o almoço e agora está de volta da fritadeira, que de tanto ser esfregada não tarda a ficar sem cor.
Já pensei em amarrá-lo à cabeceira da cama e dar-lhe tanto que fazer que o deixasse exausto durante um ou dois dias. Talvez assim ele fosse capaz de falar e livar-se da ansiedade que não o deixa parar quieto. O problema é que como a coisa anda, é bem capaz de me sair o tiro pela colatra, ficar eu K.O. e ele continuar a limpar como se não houvesse amanhã cada canto da nossa casa.

Tinha acabado de entrar na sala quando ouvi algo a partir na cozinha. Corri até lá para ver o que se passava e ao entrar ele olha-me com um sorriso envergonhado:
- Acho que temos de comprar mais copos para repôr o stock cá de casa.
- Lá se foi mais um... Andas demais ultimamente! - disse-lhe em tom de troça.
- Escorregou-me das mãos... - e baixou o olhar.
Então dei-me conta que já não estavamos a falar do copo que se tinha acabado de partir.
- Anda cá! - Abracei-o e ele correspondeu, apertando-me gentilmente e deixando descançar o queixo sobre o meu ombro. Ambos sabiamos que ele era cuidadoso, e só esta semana já era o quarto.